O papel da antropologia decolonial e a antropologia decolonial de papel

O papel da antropologia decolonial e a antropologia decolonial de papel

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Jefferson Virgilio

Jefferson Virgilio est anthropologue. Il est titulaire d’une licence et d’une maîtrise en anthropologie de l’Université fédérale de Santa Catarina. Il a effectué des recherches de terrain à Lisbonne entre 2012 et 2013 et à nouveau entre 2014 et 2015. A cette époque, il était rattaché à la Faculté des sciences sociales et humaines de la Nouvelle Université de Lisbonne. Il se consacre aux thèmes liés à l’histoire de l’anthropologie. Il porte une attention particulière à la participation des anthropologues aux processus modernes de colonisation et aux épistémicides promus lors des tentatives insistantes d’institutionnalisation de la discipline et de réécriture de son histoire. Il est doctorant en anthropologie à l’Institut des sciences sociales de l’Université de Lisbonne où il mène des recherches avec les Indiens Laklãnõ dans le sud du Brésil depuis 2016.

jv@ia.edu.pt.


 O texto deste artigo não é um material inédito. Originalmente o texto surge como partes de uma dissertação de mestrado em antropologia social. Como na maior parte dos países que possuem programas, títulos ou cursos de mestrado e de doutoramento, antes de alguém ser reconhecido como mestre ou como doutor em determinada área da ciência é necessário passar por uma banca de avaliação da tese ou da dissertação. A banca deverá julgar o mérito da proposta escrita e que é defendida pelo candidato.

A banca possui a capacidade de reprovar o candidato à mestre ou doutor pelos motivos e sob os argumentos que julgar procedentes ou adequados. A largura desta subjetividade é tal, que sustentadas em ameaças de reprovação caso não faça as adequações necessárias (e em tempo hábil), não são raras as reescritas de significativa parte dos trabalhos contra a vontade da própria parte autora, ou em quantidade muito menos frequente, a ocorrência da violenta mutilação do texto original.

A recusa a tais ordenações possui limitações e também consequências óbvias. A principal é não receber qualquer distinção pelos anos investidos em pesquisa. Mas possivelmente o mais grave resultado deste esforço implicaria no impedimento de qualquer continuidade de vida académica.

A maior parte deste texto remete para a integralidade de dois capítulos que eu fui obrigado a remover completamente do texto final de minha dissertação. A primeira parte é um dos capítulos iniciais onde houve a obrigatoriedade de drástica edição. A quem interessar, a mutilada versão final da dissertação está disponível online.1 A versão que foi originalmente entregue à banca também.2

A comparação entre as versões pré e pós banca é estimulada, assim como é esperado que ao término da leitura deste artigo, seja possível compreender sobre os motivos da submissão deste conteúdo para a Réseau d’Études Décoloniales. E porque a banca propôs-me forçadas alterações.

Pode ser considerado que em síntese a ideia central deste artigo é auxiliar na proposição de modos saudáveis de produzir e consumir conhecimento em antropologia de maneira remotamente crítica, consciente e esclarecida. Em outros termos, revelar o papel de uma antropologia decolonial, permitindo que não seja apenas uma versão no papel da dita antropologia decolonial.

O texto que compõe este artigo sofreu alterações que foram julgadas necessárias para permitir alguma compreensão fora do espaço e do tempo onde foi originalmente concebido. O tema central de pesquisa original versava sobre as relações entre as antropologias brasileira e portuguesa.

Introduções gerais

They do it when they see a creature do something, and they are sure: First, that the creature did not learn how to do something and, second, that the creature is too stupid to understand why it should do that. […] When they see that all members of the species do the same things under the same circumstances; and when they see the animal repeating the same action even when the circumstances are changed so that action fails.3

Gregory Bateson

Trezentos e sessenta e cinco dias. Completos. Exatamente um ano. Mas não um ano bissexto. Esta é, ou seria, uma mensuração precisa e uma descrição factível, dentre tantas possíveis reduzidas e pouco úteis construções, sobre o período entre o abandono corpóreo que é produzido desde o fim de uma primeira visita em Lisboa4 e um retorno, no início daquelas semanas que inocentemente são percebidas, e covardemente delegadas, para ter a responsabilidade de representar o conjunto de trabalhos de campo que orienta este ensaio e as pesquisas com as quais há tentativas por matrimônios académicos. Mas a mensuração é primária e, portanto, compreendida como dotada de influências que estão quase limitadas à linha de início que é escrita na página primeira do último (e novo) diário de campo.

Acreditar que pouco mais de três semanas, despedaçadas entre visitas a congressos, leituras de bibliografias, e entrevistar docentes seriam suficientes para fornecer material “empírico” para a escrita de uma tese em antropologia deveria parecer loucura, mas é o possível de ser vislumbrado dentro do campo de possibilidades,5 após o término da graduação em antropologia e sem o reconhecimento enquanto antropólogo.

Como indígenas do nordeste6 que não possuem reconhecimentos enquanto indígenas pela ausência de saber mínimo em etnologia indígena de outrem, graduadas e graduados em antropologia não têm identidades validadas ou aceites enquanto antropólogas e antropólogos por ausências de aprendizados mínimos em antropologia de quem lhes desqualifica como tal.

A situação de negligência pode ser agravada para quem está nos subúrbios da antropologia, pois para quem não está nos centros há ainda percalços adicionais. Assim, é esperada alguma filiação à real antropologia, real de realeza, ou royal, quase à mando de coroas, aquelas, de tempos coloniais, que ainda “tratam (apenas) de povos colonizados”, sejam índias e índios, e que depois, na falta de indígenas para tantos etnólogos, pode (até) “tratar de negras e negros”.

E nesta sugerida hierarquia de legitimidade enquanto tradicionais7 objetos de pesquisa para a antropologia, há muitos subalternos grupos antes de “aceitarem” como legítima uma investigação sobre antropólogas e antropólogos. Principalmente se tiverem origens portuguesas.

Ainda que haja fugas de discursos sobre raças, para permitir a entrada das culturas,8 posteriormente há a partida das culturas para a chegada de identidades.9 E não tarda o acolhimento a construídas ontologias como substitutas a identidades. No estranho emaranhado de lógicas de interpretados10 significados11 é de se compreender que se não há ritos, xamãs e parentes em nomeações como tradicionais não há tanta teoria, mas se não houver descrição densa12 suficiente, a discussão é metodológica demais. A balança acaba sendo entre escrever literatura de segunda categoria com carimbo UNESCO de patrimonialização cultural13 ou viajar e preconceituosamente vigiar outrem, sendo fácil e comum a posição central, produzindo páginas e mais páginas de descrições fabricadas de outrem enquanto exóticas e exóticos.

Nesse contexto, sem possuir reconhecimento como antropólogo, inexistente apoio institucional em meu programa de pós-graduação e com limitada acuidade financeira, oportunidades de fazer “campo no estrangeiro”, ainda que em tão limitada duração, e para quem de índias e índios não trata, podem ser salvaguardas de oportunidades sem procedentes.

Um primeiro grande desafio de contextualização encontrado pode remeter ao tentar estabelecer limites ou mapear características daquilo que se pode sugerir compreender como antropologias portuguesas, e neste sentido, antes de tudo, convém promover algumas indicações sobre os alcances da pesquisa, notadamente por carregar um recorte de contexto que pode ser compreendido como algo exageradamente ambicioso. De certa forma o é, pois permite projetar impressões onde podem ser sugeridos portes de análises sobre diálogos que ultrapassam em muito as dimensões e capacidades possíveis para tal material.

Em algo próximo a expectativas sobre antropologias portuguesas, brasileiras, lusófonas, luso-brasileiras ou transatlânticas, são muitas as aproximações iniciais possíveis, assim como variados são as direções dos pontos de partidas prováveis, e assim, distinções entre modos de fabricações de nomenclaturas são talvez secundárias ao considerar outros fatores e características, permitindo aberturas para outras abordagens:

Pode-se por exemplo propor desde consultas até produções, em revisões históricas,14 maquiadas como estado da arte,15 ou ainda aquelas que possuam o sugerido encontro ou mesmo que tangenciem tal finito ponto de contato, tido como paradigmático,16 desde o princípio da pesquisa.

Generalizantes idealismos sobre convergências teóricas ou metodológicas, assim como inocentes aceites de estados da arte unitários em antropologia tendem a revelar maiores desconhecimentos das formações e correntes cursos da disciplina ao invés de acreditados supostos domínios ante a respectiva, como as caçadas ao utópico ponto de estado da arte podem acreditar sugerir ou mesmo crer evidenciar.

João Leal sugere na aula inaugural do mestrado em antropologia da Universidade Nova de Lisboa que “a pulverização teórica é o estado atual da disciplina”. O que me leva a escrever em meu caderno de notas17 se faz qualquer sentido uma busca por tal estado. Esta proposta situação, em adição as críticas de pesquisas que pelo que as percebo, partem de embasamentos teóricos para atingir e justificar enquadramentos temáticos com frequência previamente escolhidos, podem render preciosos questionamentos em antropologia.

Diário de campo, de 8 de setembro de 2014

Ainda que a produção de tais bibliográficos compêndios pode se tornar de alguma valia por permitir pontos de contatos com objetos, agentes e campos de estudo que almeja alcançar, esta ser o ponto limítrofe da produção escrita, e assim reduzir a apresentação à dada concepção, é um danoso risco que pode ser evitado ao privilegiar uma revisão de literatura que ultrapasse limites de análises cronológicas e que se permita incluir no texto como parte dele, e não como um simples capítulo de introdução dita temática à pesquisa.

Outra opção pode perpassar por sugeridas análises de relações entre múltiplas antropologias,18 primando, na medida do possível, tentar mapear como são construídas parte das relações, permitindo perceber estruturas e níveis de influências e hierarquias, rupturas e continuidades, passadas ou presentes. Dotadas de maiores ou menores impactos, as análises declaradas como comparações por contraste19 podem também ser comuns.

E pelas características de construção de tais contextos, por exemplo, enquanto lusófonos, é ainda possível sugerir que as relações que as produzem, ou que são por elas produzidas, possam ser alegadamente compreendidas enquanto produtos de processos categorizados como colonizadores,20 ou mesmo com dotes de usos e portes de pretensões neocolonialistas21 ainda que declaradas enquanto pós-coloniais22 ou até descolonizadoras23 e anticoloniais.24

Reduções de agentes, ou instituições, enquanto percepções idealizadas de produtos finais, em perspectivas terceiras e externas, obstruindo identificações enquanto partes ativas nos processos25 impedem o nascimento de emergentes perspectivas que permitam analisar complexidades de tais processos tendo em consideração os flutuantes ciclos de formação e de manutenção de relações,26 e que reduzem possibilidades de limitá-los a estágios finais de algo que há muito, ou pouco, se constituiu. Em um devaneio maior, é permitido acreditar ser possível perceber partes de dinâmicas em uso e alcançar vistas das transformações de campos de estudo que se espera conhecer.

Poderiam ser talvez óbvias as hipóteses de descartes automáticos de explicações que estão sustentadas pelas adoções das facilitadas argumentações, que enquanto impressas nas análises de recortes “temático-geográficos” os determinam como fundantes, estruturantes ou limitadores das relações que procura apresentar.

Mas apesar de perspectivas e aproximações temáticas apresentarem algum avanço específico epistemológico em dadas circunstâncias e contextos de pesquisa, não se deve crer que se trata do único meio de atingir especificidade ou foco de pesquisa, ou mesmo o mais apropriado em antropologia. Além de tornar difícil o cruzar de fronteiras entre os fabricados e impostos limites entre campos ou áreas de saber, é capaz de enviesar os passos dados na pesquisa para pouco, ou nada, além do caminho anteriormente conhecido ou construído por outrem em temáticas próximas.

Outro problema, no meu entender gravíssimo, desse sistema, é que é um sistema completamente, esparralhado, por caixinhas com nomes, por caixinhas com temáticas, e que não dão qualquer espécie de existência as interações, portanto ou é migração, ou é género, ou é [cultura] material, ou é não sei o que… Pras migrações é preciso citar aqueles, pro género é preciso citar os outros, pra [cultura] material é preciso citar os outros, e, portanto, estamos numa máquina de produzir, de forma sistemática, mais do mesmo, e onde a criação e a inovação morreram.

Entrevista com Filomena Silvano27

Por fim, em inúteis tentativas de evitar generalizações, há frequente atração por vertentes que se não estão envoltas nas produzidas reflexões de analistas que apenas ao local28 estão atentos, destas é que distanciam os olhares, em deslocamentos de percepções que buscam encontrar o global.29

Pode ser permitido compreender que há muitas possibilidades e espaços entre abordagens de análise ditas micro ou macro, onde tais separações e distinções em antagônicas e isoladas posições para usos em relatos de pesquisa são desnecessárias, principalmente quando remetem a sugeridas exclusividades, remetendo ao optar entre o local e o global. Mobilidades entre tais extremos pontos de vista podem ser preciosas e incentivadas enquanto problematizadas, e valorizadas quando reversíveis, relacionais e permutáveis entre si. Pode-se inclusive esperar algum alargamento ou incremento das percepções sobre o campo nestes constantes deslocamentos de perspectivas.

A projetada separação entre pesquisas procurando pelo tido como local e pelo tido como global em antropologia, pode ser comparada a separação construída e incentivada entre práticas tidas como teóricas daqulas ditas pragmáticas:

A scholar is never just a theoretician or a pragmatist. […] Scholar alike oscillates between contrasted rhetorical poses for which they can deploy a rich store of symbolic flags and stakes. There is nothing deprecatory about calling both aspects of both parallel situations rhetorical, unless one starts pre-emptively from an absolute distinction between the tropological and the literal, or between the ideal and the real (and in that case there is nothing to argue about). […] And although one might be excused for occasionally doubting it -for such is professional rhetoric- anthropologists are social beings too.30

De certa forma, enquanto há deslocamentos e trocas de posições, se pode ter esperança de alcançar partes disto tudo, e algo mais, procurando compreender algumas das relações constituídas e constituintes, enquanto são delineados e se possíveis também percorridos sutis traços de vista,31 de partes das antropologias que desrespeitam as inventadas e invisíveis fronteiras que estão riscadas entre tantos lados de um oceano azul32 de antropologias que fugitivas de forçosos enquadramentos temáticos, permitem negar sujeições de apresentações enquanto pontos temporais de passados a ser registrados enquanto contemplativos e alegados como explicativos.33

Mas a antropologia, um tanto surda à sua própria história, continua a se comportar como se fosse precisamente aquilo que já decidiu não ser: uma disciplina paradigmática. Estamos a criar cursos de antropologia em que, um ano após o outro, se ensina teoria antropológica. Os orientadores exigem e os estudantes aspiram a elaborar uma boa discussão teórica. Tudo isso é muito legítimo. Mas, curiosamente, não há a mesma pressão para que os pesquisadores descubram algum objeto novo: modesto, pequeno, mínimo se quisermos, mas novo. Há mesmo uma certa prevenção contra aspirações desse tipo: não seriam excessivas e desnecessárias? Afinal, o que se pode deduzir de uma discussão teórica onde em rigor não há refutação é que não há nada de novo sob o sol? A praia toda está ocupada. E além disso, se a antropologia é uma ciência permanentemente jovem, então a exigência de originalidade de qualquer pesquisa talvez pudesse se cumprir descobrindo cada vez, por toda a parte, os mesmos novos objetos.34

Ao evitar frenéticas e fanáticas buscas por “explicações” sobre idealizados mitos de origem de relações específicas e passadas, tornam-se tangíveis outros encontros e aproximações com parte das relações analisadas. Pode-se compreender quase que como um incentivo para que:

Besides being more sensitive towards our disciplinary past we must also be more critical towards our current predicaments: it might well be that we keep reproducing – albeit in a different jargon – the same mistakes that we have accused our ancestors to have made.35

Sendo que sobre os potenciais que podem ser atingidos ao tecer deslocamentos de perspectivas em traços de vista, é ainda possível sugerir que:

Dessa integração e assimilação desses olhares sobre um mesmo objecto resulta uma nova compreensão deste, que não é certamente fiel às intenções e sentidos originais, mas que, por isso mesmo, por beneficiar da componente perspectival inerente à distância e à diferença, pode conduzir à fusão e alargamento dos horizontes do visível e do compreensível.36

Desta forma, mais do que encontrar uma ou mais respostas, para antecipadas e fabricadas “perguntas de saída”, via invocação de uma ou mais rigorosamente selecionadas “metodologias de pesquisa”, para um ou mais específicos públicos de “temáticas leituras académicas”, é possível compreender que pesquisas permitem algum aprendizado, ao desamarrar alguns dos nós que são forçadamente presos e lacrados entre projeções de teorias, métodos e temáticas de pesquisa.

Hoje, numa das últimas aulas da disciplina de teoria antropológica no mestrado em antropologia, aqui em Lisboa, nós tivemos a primeira aula de métodos. Após longas horas de explicação sobre a “importância e uso de métodos em antropologia”, o docente esclarece, ao corpo de vinte-trinta discentes sem grande formação em antropologia que todos os livros de metodologia não se aproximam de algo que seja “suficiente”, pois cada caso é um caso.

A dificuldade por vezes nem atinge o ponto sobre o que está no papel, alardeado como método da, na e para a antropologia. Como é esperado a exposição no próximo item, em determinadas situações, arremessa-se para o papel justamente aquilo que certa antropologia faz questão de recusar como parte de sua natureza. A desconstrução e a revisão de suas verdades.

A antropologia é decolonial apenas no papel

Ordenações cronológicas por essência são fortes enviesadoras de argumentos, onde as narrativas históricas permitem colocar vieses de perspectivas estruturalmente limitantes nas construções de relatos das descrições, e principalmente em posteriores apresentações, ao serem alardeadas enquanto leituras etnográficas dessas problemáticas. E etnografias submetidas a prisões ou adestramentos de cabrestos em narrativas com tão limitados alcances se fecham, ficando dotadas de abordagens aos campos com aproximações bastante encapsuladas. Viciadas.

Boas antropologias não são academicamente monogâmicas, estando disponíveis a relações múltiplas, abertas, temporárias e sem compromissos de religiosas fidelidades, com outros campos de saber. Diálogos com a história, como com outras ciências, humanas ou não, são positivos, tendo problemas em muito reduzidos a padronizações e práticas de exclusividades ou mesmo de tentativas de manutenção de posição enquanto única orientação de aproximação a objetos de estudo.

Situação similar pode ocorrer ao estabelecer matrimônios de permanente duração com a filosofia,37 sempre no singular, dita ocidental e tida europeia.38 O objetivo de algum canibalismo científico não é se tornar o outro, pois assim se perde a posição predatória, para se tornar presa. As relações são em fagócitos e mínimos empréstimos, posteriormente regurgitadas se necessário, e não em tentativas de substituições, transplantes ou fusões de complexas aglomerações de específicas partes.

Então, quando algumas pessoas fazem só uma destas, perdem o resto. É o que eu acho. Acho que então enganaram-se, queriam ser filósofos e enganaram e foram pra antropologia e deitam fora aquela conjunção preciosa que a antropologia tem, e vão só fazer filosofia. Sem ter treino filosófico. Pra mim é errado. Porque vão fazer uma filosofia que não é validada por filósofos, e que não é bem antropologia, mas que passa por uma espécie de meta-antropologia. Às vezes, alguns são muito inspiradores. De fato, o Clifford Geertz é muito inspirador. Não é que eu particularmente aprecie tudo o que ele faz, mas ele escreve de uma maneira magistral.

Entrevista com Cristiana Bastos

O próprio modelo frequentemente difundido de prática de uma suposta antropologia faz uso e é consumido por vícios de uma série de caixas-pretas39 e de instituições,40 ao invés de propor desconstruí-las e questioná-las em suas descobertas diárias. Em uns tantos programas de pós-graduação em antropologia no Brasil, sem qualquer dificuldade resume-se oito-nove em dez trabalhos de dissertação e de teses, assim como os infinitos papers que deles e para eles resultam, a uma ou mais de versões de: construções literárias e fabricadas de outrem; especificidades de abordagens consoantes uma determinada temática que é validada, – e apenas – por suas partes, como fundamentação teórica, sendo esta sempre acompanhada do não domínio ou total desconhecimento de uma sem fim quantidade de outras temáticas caras à antropologia, impossibilitando quaisquer diálogos ou produção de interseccionalidades; paternalismos e agenciamentos por “antropólogas e antropólogos” de sujeitas e sujeitos de estudo; exagero na propaganda de políticas públicas ou financiadores; e por fim as horríveis análises com discussão única e – alegada como – oriunda de outros campos do saber, com algum destaque para discentes em fuga da história, do direito, da psicologia e da sociologia,41 que uma vez, inúteis e impotentes em seus próprios domínios de origem, literalmente rumam para a antropologia, que os acolhe sob alegadas e defendidas interdisciplinaridades, que se resumem na verdade a substituição, em uma espécie de proposta de assimilação42 às avessas, ignorando potenciais aprendizados e sugeridas trocas de saberes, quando sucumbe ao fagócito científico com o qual afirma e acredita estar em diálogo. É uma tentativa de limitar as três pontas da teoria da dádiva: dar, receber e retribuir,43 em uma: receber, de outras disciplinas. Um empréstimo que não será devolvido. Pode ser interessante considerar a oferta de contra-dádivas a influências académicas.44

Há opções de fugas a tais padrões, que em muito podem acabar em tentativas de sutilmente buscar desviar de modelos de monografias antropológicas,45 em um processo que pode ser parte de algo que se diz iniciar nos primórdios da década de 70,46 quando é permitido avançar na apresentação do observado e do vivido enquanto etnografias com apresentações em tese subalternas,47 onde se permite romper com as estratégias de coerções de ilegalidades48 previamente propiciadas por grilhões metodológicos em voga de aceitação e difusão na academia.

Apesar de tentativas de resgates e manutenções de permanências se pautarem por afirmações que podem ser generalizadas como sugeridos alarmes quanto a supostos exageros estatísticos,49 ou procuras por objetos de estudo demasiadamente sociológicos para a antropologia, é de se ressaltar a pertinência de constantes aberturas e reconstruções enquanto menções frequentes nos discursos antropológicos, ou mesmo o mapeamento de parte dessas revisões.50

Um primeiro equívoco pode surgir ao aceitar que tudo é etnografia, sendo ainda mais problemático quando a etnografia é reduzida a uma representação em texto do trabalho de campo realizado,51 e agravada por ser orientada para um ou mais tipos de potenciais consumidoras e consumidores52 deste material supostamente etnográfico.

Além do fato óbvio de que nem sempre a tarefa de escrever etnografia é tão simples, automática, precisa e preciosa53 quanto sugerida ou acreditada por quem não faz etnografia. É possível que a antropologia não se reduza a produtora de sugeridas e incentivadas literárias descrições fabricadas de outrem para exportação,54 principalmente quando ocorrem coletivas ignorâncias e intencionais esquecimentos de que antropologia não se reduz à etnografia.55

Durante uma aula de antropologia urbana, certa professora antecipadamente complementa o que passados dois meses eu escuto de outra em uma entrevista. Enquanto a primeira alerta que: “Apenas descrever o que lá está não é antropologia. Se calhar, lá longe, mas longe mesmo, podemos discutir se isto é etnografia. Eu adianto que não penso que seja, mas antropologia definitivamente não é.”, A segunda adverte que: “É que quem diz que isso é antropologia, conclama como a mais alta literatura, quando nem entre literatura barata isso sobreviveria, mas como tudo pode ser antropologia…”.

Diário de campo, de 20 de junho de 2015

Neste sentido, as primeiras desconstruções a serem provocadas podem ter precauções quanto a limitações e orientações provocadas por direcionamentos de descrições contínuas, incentivadas e constantemente dotadas de perspectivas lineares de continuidades de eventos, atos, encontros e desenvolvimentos. A proposta pode ainda ser complementada por abordagens descritivas que não se reduzam a apresentar o outro enquanto exótico em textos vulgarmente sugeridos e que se declaram como literários, ainda que priorizem discursos quase esópicos.

Uma proposta mínima de perceber parte das redes de relações56 pode desconsiderar os comuns protagonismos de linhas cronológico-sequenciais nas exposições de relatos que se afirmam etnográficos, especialmente quando envoltos em discursos orientados a produção de relatos em ficção de fantasia afirmada como etnográfica.57

É importante reiterar como as manutenções de protagonismos é que podem ser revistas, e não estando no foco das argumentações as potenciais existências destes, ou mesmo nas comuns opções por adoções destes dispositivos de apresentação ou ainda quando em usos de espetacularização58 em face de outras abordagens estético-discursivas de exposição ou sugeridas críticas antropológicas.

Talvez ao compreender que ao invés de linhas do tempo, quase que como resquícios de continuidades de lógicas evolucionistas,59 podem se talvez procurar por tempos,60 é que se identifique que provavelmente não são unitários e não merecem ser essencializadores.61 Deixando de serem viáveis tão facilmente as reduções destes enquanto categorias unitárias ou binárias, e em não raras vezes declaradas como oposicionistas,62 evitando por fim que o aceite de relatas ideologias63 feche as aberturas que são supostas por caracterizar a antropologia.

Cercear descrições etnográficas a uma lógica de temporalidade, por exemplo, e principalmente enquanto milimetricamente sequencial, ou a sua constante ausência, no singular, é reduzir os potenciais de etnografias em abrir horizontes perceptivos de antropólogas e antropólogos. Além de focalizar a noção de etnografia a algo que a descaracteriza, ainda permite – e até pode incentivar – normatizar a prática etnográfica feita pelo antropólogo e pela antropóloga a algo fechado em si mesmo.

Se não é sugestão aceitar que tudo é uma sequência temporal linear, e como tal deve ser apresentada e descrita, a opção por mergulhar nas profundezas desconhecidas do maniqueísmo da adoção do automático oposto, por meio de validação relativa de antíteses64 não deve ser vista como única saída. A ausência de temporalidades pode envolver um conjunto de riscos que antropólogas e antropólogos devem problematizar, se desejam evitar a abertura de brechas para percepções e discursos envoltos em alegadas falsas simetrias de reposicionamentos, ou mesmo de ausências e presenças.

Compreender o “automático oposto” como a virada em exatos cento e oitenta graus, seja de perspectiva, posição, existência ou valor, em subjetiva tese para uma situação tida como oposta. Se em alguns casos pode revelar a sua valia quase construtivista ou revolucionária por provocar uma virada de perspectiva, em outros, há aberturas para afirmações e deduções dessas viradas quase como o gêmeo maligno, que acabam por permitir acusações a posteriori de existências de falsas simetrias ou reposicionamentos.

Diário de campo, de 1 de agosto de 2015

Em outros casos, sem grande dificuldade a virada em cento e oitenta graus promove apenas uma falsa sensação de desconstrução, quando o que ocorre é apenas uma inversão, temporária, de papéis ou funções, por vezes tentativas falhas de permutas de posições. As giradas e viradas não devem se reduzir apenas a um sinal de negativo, ou a uma imagem espelhada ou invertida. A variedade de lentes possíveis de provocar os deslocamentos é elevada demais para se reduzir à tamanha (não) diversidade de precisos ângulos, ou a curtos feixes de espectros de reflexos e em espelhadas imagens.

Outras valorizações de deslocamentos para perspectivas mais subalternas podem remeter a inclusões nas agendas de infinidades de outras agencialidades,65 marcadores socioculturais das diferenças66 e campos de possibilidades67 que perpassam por lugares e não-lugares,68 materialidades e imaterialidades, humanos e não-humanos,69 permitindo assim outras formas de perceber, analisar e principalmente descrever, por exemplo, alguns dos infinitos passados.70

É problemático quando se há confinamentos desde o princípio para apresentação de dados em formatos de construções de percepções (e percepções de construções) em sequências temporais e quase lineares. Torna-se sintomático ao tentar mapear os déjà vu que recebo em campo. São duas, três, quatro situações que se não remetem ao mesmo, parecem no mínimo repetições. Há vantagens em incluir perspectivas dotadas de maiores subjetividades para possibilitar desconstruções de verdades metodológicas, teóricas e principalmente estéticas. Mais de uma vez escuto que nem tudo está escrito nos livros. E tampouco em cursos de antropologia.

Diário de campo, de 1 de agosto de 2015

É suposto que os instrumentos oferecidos pela antropologia tornem possíveis e permitidos os meios de tecer redes de descrições71 e de significados,72 que ainda que cunhadas apenas sob as reflexões que são capazes de serem provocadas perante os reflexos das facetas que se procura apresentar, possa permitir problematizar e romper as mazelas das estruturas73 de percepções que afetam antropólogas e antropólogos.

Problemas evidentes de abordagens relativistas74 e de infinitas reflexões produzidas sobre reflexos são parcialmente conhecidos e expostos:

But Clifford has gone beyond all that. Clifford is no longer interested in “the Other” (i.e. the ethnographic object, other societies, cultures): the “Other” for Clifford is the anthropological representation of the Other. Rabinow deconstructs Clifford’s deconstruction of anthropologists’ deconstruction of… Where will it all end? Clifford is not interested in the Navajo or Nuer or the Trobrianders, he is interested in what anthropologists say about them… How about someone only being interested in what Clifford says about what others say…75

Ao evitar inspirações e tentativas de participação nos círculos de reflexões de outrem sobre as imagens construídas nas experiências de percepção de outras partes, torna-se possível o real objeto da etnografia: Talvez encontrar partes das linhas que formam os primeiros traços das superfícies76 que algumas e alguns de nós buscam descrever.

Traços e linhas que não raras vezes caem nas comuns armadilhas das linearidades cronológicas. As quais, como já expostas, podem ser ainda mais limitantes.

Neste sentido, os relatos expostos poderiam fugir a totalidades de linearidades cronológicas de sistemas estruturalmente simplistas de repetição de variáveis da composição, para buscar permitir rever partes da descrição etnográfica.

A consulta aos múltiplos lugares e aos múltiplos tempos pode ser proposta, em concomitância com a ruptura aos ideais hierárquico-sequenciais das narrativas histórico-cronológicas. Ao invés de afirmar seguir objetos77 ou seguir pessoas,78 ou de buscar encontrar lugares79 ou tentar encontrar tempos,80 é possível buscar, seguir e também construir relações.

Um mês antes, a mesma professora de antropologia urbana sugere que: “Malinowski é acusado e responsabilizado por forçar as antropólogas e os antropólogos à observação participante localizada, quando o senhor nunca o fez. Se olharem bem, ele estava sempre a se mover pelos barquinhos”. E minutos mais tarde esclarece a importância ao sugerir que: “As cidades só crescem porque há migrações. As cidades não crescem por autorreproduções, mas sim pela chegada de mais pessoas. E por isso não se percebe o urbano se não for levado em consideração as zonas [rurais] de “origem” dos grupos migratórios”.

Diário de campo, de 11 de abril de 2015

A questão não está em quem é a primeira (ou última) pessoa em antropologia a propor ou fazer “trabalho de campo”, ou se esta é localizada ou multi-localizada. O cerne está no caráter intrínseco de observar relações sociais ao tentar realizar alguma antropologia. Relações sociais que podem ser incluídas em fluxos migratórios ou de deslocamentos, estabelecidas em trocas de pessoas (e objetos), ou na manutenção de zonas de contatos (e fronteiras),81 ou permitir criações e manutenções de misturas.

As relações sociais é que podem ser “seguidas” e orientadoras do trabalho de campo em antropologia, permitindo inclusive revisar e remodelar as regras e padrões em voga do trabalho de campo em antropologia.

O papel da antropologia que é decolonial

Mesmo que não seja possível confirmar se a autoria da célebre frase que sugere que a “art is not a mirror to hold up to society, but a hammer with which to shape it.” é de Vladimir Mayakovsky,82 ou se é de Bertolt Brecht,83 ainda assim podemos fazer uso da respectiva para propor algo próximo à antropologia.

E não pela posse de uma potencial descrença das capacidades de transformação que a antropologia pode promover (e provocar) a quem estuda (e a outrem),84 mas por propor algo mais característico da respectiva, ainda que nitidamente invisibilizado, que se pode propor a tentativa de destaque enaltecendo que ainda que a antropologia revele algo das sociedades, serão apenas partes de uma ou mais das múltiplas facetas das sociedades. E ainda que a antropologia seja capaz de moldá-las, será novamente apenas em partes de uma ou mais dessas facetas.

Historicamente, agora colocando a coisa em um plano mais amplo, de um ponto de vista longo de ver, isso só foi possível a partir do momento em que a antropologia do ISCTE e a antropologia da [Universidade] Nova [de Lisboa] começaram a renovar a própria antropologia portuguesa. […] O problema colonial da antropologia portuguesa que vinha de antes do 25 de abril, ligada a escola colonial, que depois tem continuidade no ISCSP. […] Ou seja, foi preciso haver uma inovação da antropologia em Portugal, uma modernização. E a europeização foi muito boa, e só assim é que depois a gente conseguiu ir ao Brasil, de uma forma que não tivesse a ver com um discurso de lusobrasilidade que os próprios coloniais tinham.

Entrevista com Miguel Vale de Almeida

Considerando discursos antropológicos que sugerem aberturas para constantes revisões que a antropologia pode se submeter, é de se sugerir que um efeito-martelo seja utilizado ao próprio método etnográfico e também ao existente ideal de descrição etnográfica.

Compreender o “efeito-martelo” da e na antropologia como a capacidade em provocar revoluções de funções, definições, morfologias ou limites aos próprios métodos de pesquisa, por base em resultados, e principalmente em reflexões sobre os resultados, que se recebem e constroem após o uso ou mesmo a análise dos respectivos métodos de pesquisa. É um exemplar dotado de retroalimentação próxima a idealizada máquina de moto-perpétuo,85 ou mesmo as repetições do homónimo moto-perpétuo musical,86 aplicada a teorias sociais e potenciais e permanentes habilidades de provocar autotransformações e rupturas de paradigmas, não apenas em seus campos de estudo, como em suas internas metodologias e externas estéticas.

Diário de campo, de 2 de setembro de 2015

Viradas em cento e oitenta graus costumam ser compreendidas e almejadas como iminentes e potenciais revisoras de paradigmas87 em curso, quase como viradas decoloniais.88 Mas as inversões de valores, hierarquias e percepções pouco ou nada promovem, além de trocas de papéis e posições, no máximo forçadas e batidas, sugeridas e idealizadas permutas de perspectivas, portando alcunhas como a de viradas ontológicas.89 A oprimida que almeja se tornar o opressor não é algo exatamente novo.90

Teorizar reposicionamentos recém-distribuídos nos pontos de alocação já conhecidos dentro da estrutura enquanto estágios terminais de mudanças, ou mesmo definitivos pontos finais, permite criar apenas novos pontos paradigmáticos a serem desconstruídos, na próxima “virada”. As desconstruções podem ser contínuas e expansíveis, e em deslocamentos, e antes de promoverem focos a passados e futuros, podem destacar o fim de posições de hegemonia e rigidez nos espaços e tempos presentes, ao invés de disputa-las.

Inversões de forma, posição ou valor que possuem total falta de comprometimento com a heurística91 que em tese as invoca são nada mais do que luxos de matrizes (pseudo) filosóficas (ou políticas), e não antropológicas. São parte do conjunto de objetos e campos de estudo da antropologia, e não necessariamente partes fundantes e automáticas de suas raízes de fundamentação teórica, e principalmente metodológica.

Ao invés de incentivar as permutas de posições e de valores, pode ser ainda mais valioso pensar em desconstruções,92 que podem estar ou não com orientações para se revelarem alargadas e mais independentes de categorizações, reduções e limites de escopo. De certa forma, além de desconstruir, também tentar revisitar rastros que estão marcados na superfície.93

Ao compreender que o efeito-martelo da antropologia pode permitir total revisão de marcados modelos teóricos e metodológicos, e se identificadas limitações nos métodos de exposição dos resultados da pesquisa, é compreensível propor revisões inclusive na apresentação94 de dados e de informações, consoante o observado ou o vivido em campo.

Ao propor comparações de deslocamentos de perspectivas e aproximações das imaginadas nações95 pelas presentes desigualdades entre elas, não se deveria compreender alguma sugestão sobre eventuais ausências de hierarquias dentro de campos de saber entre suas componentes, mas sim possibilidades de perceber flexibilidades de deslocamentos e desconstruções, e também compreender que tais hierarquias não estão em níveis próximos de projeção, aceite e estabilidade como as sustentadas homónimas separações entre “países”.

De certa forma, se pode ainda acrescentar o potencial valor do caráter pouco explorado de pesquisas que não se reduzam a perspectivas construídas sobre os limites de uma ou mais construídas nações96 geográficas, econômicas ou políticas.

Neste sentido, também pode haver desvios do que em outras autorias ocorre como destaques, enquanto valorizações de pensamentos de selvagens em calculistas consultas a soluções de conflitos,97 quase aceitando lhes conceder uma alcunha de intelectuais.

Estas posições de perspectivas, onde são priorizados reduzidos, básicos e ineficientes sistemas de oposições se revelam insuficientes para compreender relações complexas e em constante construção, dignas de análises que priorizem analisar dinâmicas que estão por trás das cortinas, como as redes transnacionais académicas em antropologia.

E apesar de discursos sobre a construída pós-modernidade98 usualmente alardearem o fim da modernidade,99 é possível ir além do óbvio e perceber que o provável é a multiplicação e não o extermínio100 de categorias de origem, ainda que pulverizações de modernidades não sejam automaticamente percebidas com tais alcunhas.101 E em próximas lógicas, é possível sugerir que os ditos pós-colonialismos, podem ser característicos por abrir espaços à facetas de emergentes colonialismos, independentemente de estes receberem próximas nomenclaturas e percepções.

Neste sentido, ainda que dotadas de demasiadas pretensões, é esperado que escritas críticas colaborem para tecer aproximações teóricas, metodológicas e reflexivas que permitam algum avanço para além da

análise antropológica dos processos de poder-saber coloniais, a abordagem etnográfica dos terrenos ex-coloniais e a consideração do continuum histórico e da mútua constituição das identidades de colonizadores e colonizados [que] estão apenas no início.102

Não se parece também fazer necessário retomar a desconstrução da fabricada unidade cultural ou política em espaços tidos como luso-brasileiros103 ou tampouco resgatar as problemáticas de “inocentes” valorizações à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP104 e outros órgãos e instituições similares.

Foi criada uma horizontalidade em que nós não quisemos por um lado, por razões talvez políticas e ideológicas de todos nós, brasileiros e portugueses, não caímos na armadilha de chamar isso de lusofonia. […] Fomos pelo lado de que, ok, nós somos os dois periféricos, temos uma ligação histórico cultural, e temos formações internacionais parecidas. E neste sentido somos cosmopolitas. […] Então, tentamos fazer uma coisa contra-hegemônica, por assim dizer […] que fosse mutualmente benéfica, que não tivesse a ver com nenhuma ilusão ou elogio de lusobrasilidade, nenhum resgate ao passado. […] E uma das formas de fazer isso foi olhar criticamente para essas continuidades colonial e pós-colonial.

Entrevista com Miguel Vale de Almeida

Os escapes às tentativas de corrupção envoltas nos discursos abraçados a lusofonia são acompanhados por algo que, ainda que sugira um “fundo cultural comum”, parte de outra perspectiva, como já explicitada, mais horizontalizada, e menos colonialista.

É… Eu acho que por um lado é [a] facilidade da língua, não é? Mas por outro lado é justamente, eu acho que pela língua, pela similitude de certos temas, por algum fundo cultural comum, no fundo é mais fácil, digamos sermos entendidos por colegas brasileiros, do que por muitas vezes sermos entendidos por colegas da Europa do norte, né? Não estou a falar de Espanha, estou a falar da Europa do norte, sobretudo.

Entrevista com João Leal

Assim há ainda opções adjacentes e quase marginais, em retornos incomuns, procurando aproximações, seja na tentativa de execução de uma etnografia crítica de arquivos do passado,105 ou nas caçadas a alegadas intenções identificadoras de circunstâncias políticas que poderiam ser mapeadas em narrativas de outras mídias106 ou nas visitas a casos específicos, e sugerir não querer generalizar, mas assim se permitir.107

Ao compreender que além de movimentos arriscados, estão dotados de perigosas análises tardias de documentos mutilados e frequentemente carregados de viciadas percepções terceiras, são formadas amálgamas com limitadas capacidades de críticas, e enquanto descontextualizadas dos contextos de origem que buscam descrever ou encontrar, movem em repetida e falha direção para o criminoso comportamento de crítica ao passado por impróprios olhos do presente, algo que pode ser visto como o reflexo gerado pela posse, aceite e uso de historicismos exacerbados,108 promovendo fugas à antropologia.

Mais do que embrenhar pelos caminhos ocultos do desconhecido passado, é possível que etnógrafas e etnógrafos se permitam encontrar antropologias, em comunhões com interlocutoras e interlocutores com quem produzem diálogos em seus campos de pesquisas e aprendizagens. Uma antropologia com outrem, e não sobre outrem.109

De certa forma pode se compreender que o traçado visa estar

buscando recuperar certas dimensões excluídas das análises mais pujantes. As formas políticas, as tradições de conhecimento geradas na metrópole e redefinidas através do confronto e da experiência colonial, efeito de um processo de mútua constituição, num mundo que hoje é cada vez mais pensado a partir de noções como as de fluxos, redes e processos, [que] têm permanecido de fora de uma pesquisa aprofundada.110

Não apenas promover algum abandono de constantes tentativas de estabelecimentos de pontos finais, pois podem ser proveitosas as possibilidades de engajamentos por antropologias que se permitam encontrar e conhecer os fluxos, redes e processos compositores do objeto ou campo de pesquisa ao quais almeja produzir algum diálogo.

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27 Todas as entrevistas foram realizadas entre os dias 15 de junho e 7 de julho de 2015 na cidade de Lisboa, Portugal.

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110 SOUZA LIMA, A. Tradições de conhecimento na gestão colonial da desigualdade. 2014:156.

111 Há uma edição prévia, publicada em 1996. A edição de 1997 possui adicionais notas.

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